‘Não era amor de mãe, era de paixão’, diz Jeferson sobre a principal suspeita de matar sua esposa e as duas filhas em Maragojipe

Na última sexta-feira, 19 de outubro de 2018, Jeferson Brandão, que teve esposa e filhas mortas no distrito de Nagé, na cidade de Maragojipe, no Recôncavo Baiano, no andar abaixo à construção inacabada onde moraria com a família, a partir de dezembro, folheia o álbum de casamento, quando repetindo o ritual quase diário, cortou algumas fotos e seguiu para Delegacia.

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Lá, está presa Elisângela Almeida de Oliveira, principal suspeita da morte da esposa de Jeferson, Adriane Ribeiro, 23 anos, e das duas filhas do casal, Gleysse, 5, e Ruteh, 2 – todas por envenenamento.

“Joguei as fotos na cara dela. Hoje, tenho certeza que o amor que ela tinha por mim não era amor de mãe, era de paixão”, desabafa Jeferson.

A estrada de pedra que leva ao limite do pequeno distrito de Nagé, em Maragogipe, é também o caminho para o maior mistério local. É na casa dos pais, à frente de um dos pontos de trabalho de marisqueiros, que o rapaz, cabisbaixo, tenta encontrar uma razão para o crime.

A resposta foi construída aos poucos, de memória em memória. Em todas elas está Elisângela, presa no dia 11 de outubro deste ano. A mulher aparecia nas fotos do casamento como a responsável pela festa de casamento, que se dispôs a pagar em nome do que chamava de um “amor de mãe” por Jeferson.

Na última semana, Elisângela deu entrevista a uma emissora de TV e insinuou que o rapaz poderia ser suspeito do crime. Ela disse na entrevista que Jeferson e Adriane brigavam com frequência e que ele batia nela. Jeferson, por sua vez, nega o crime e diz que quer justiça.

Igreja

A entrada de Elisângela na vida de Jeferson e de toda a família aconteceu há pouco mais de um ano. Jeferson e três amigos tinham ido a Conceição de Feira, no Centro-Norte da Bahia, onde a mulher morava com marido e dois filhos, para um evento da igreja. O jantar ocorreu justamente na casa daquela que, no futuro, passaria de sua protetora para sua maior inimiga. Rapidamente, os dois ficaram próximos.

O casamento de Jeferson com Adriane estava próximo e Elisângela se ofereceu para arcar com todas as despesas da cerimônia, no centro de eventos de Nagé, que custou quase R$ 15 mil. “Ela dizia que Deus tinha mandado ela para fazer o bem. E que ela sentia como se eu fosse filho dela. Como é que eu ia imaginar, a mulher da igreja, se aproxima de todo mundo, me ajudando em tudo?”, questiona Jeferson.

Nesse ponto, a mãe dele, Raimunda Nunes, 62, se aproxima da cadeira do filho e diz repetir o que Elisângela sempre dizia:

“Ela falava que Jeferson tinha saído daqui [aponta para a própria barriga], mas que tinha saído dela também e que era Deus quem estava dizendo”, lembra Raimunda.

A reportagem pergunta se, em nenhum momento, houve qualquer desconfiança sobre as ações da mulher. Jeferson nega. “Só sabe do que a gente tá falando quem viu ela aqui com a gente, moça. Ela parecia boa, só provava que realmente me tinha como um filho”, responde.

As desconfianças vieram depois, lentamente, quando as filhas e a esposa já estavam mortas. Elisângela estava sempre por perto, havia criado uma espécie de rotina tão presente em Nagé que parecia ser moradora do distrito. Passou todo o mês das mortes da casa onde, na última segunda-feira (22), Jeferson conversou.

“Só de pensar que a gente abrigou uma assassina aqui na nossa casa. Uma assassina…”, revolta-se José da Conceição, 62, pai de Jeferson.

As mortes

Elisângela desenvolvera um costume: quase semanalmente, ia para Nagé com o marido e os dois filhos. A casa onde Jeferson e Adriane moravam com as filhas era prontamente desocupada para a família visitante. Um sinal de agradecimento. Mas que, de tão frequente, começou a incomodar. “Não era por nada. Mas a gente sempre tinha que vir pra casa dos meus pais. Ela dizia que ia passar um final de semana e queria ficar a semana inteira”, lembra Jeferson.

O desconforto foi conversado com Elisângela. Ela poderia continuar as visitas, mas com prazos. “Aí, senti que ela ficou chateada. Mas, não era que a gente não queria que ela viesse. É só porque a gente precisava ter nossa rotina”, defende-se. Se realmente ficou chateada, logo passou. Poucos dias depois, Elisângela retornou a Nagé. Dessa vez, hospedou-se na casa dos pais de Jeferson.

A relação parecia não ter sofrido grandes abalos. Elisângela pedia, insistentemente, que fosse chamada de mãe pelo pescador. A primeira semana da estadia transcorreu tranquilamente. Às vezes, retornava a Conceição da Feira, onde tinha um negócio de venda de salgados e doces; outras, dormia na cama onde, hoje, há logo acima uma foto enorme de Jeferson e Adriane, seguida por cinco porta-retratos do casal.

A segunda semana de estadia começou com a primeira morte na família. Na versão de Jeferson, ele e a esposa deram arroz com frango para Gleysse, no dia 30 de julho. A pequena estaria no sofá com Elisângela. É quando, nos minutos fora da visão, acreditam ter ocorrido o primeiro envenenamento. “Oh, pai, vem cá”, teria chamado a garota, já sem os movimentos usuais, com algumas secreções aparentes.

No Hospital de São Félix, morreu como diabética. “O açúcar subiu demais por causa dos remédios. Ninguém nem desconfiava de que ela tinha sido envenenada”, lembra.

Na segunda-feira seguinte, dia 6 de agosto, Elisângela ainda estava em Nagé. Na verdade, preparava uma panqueca para o almoço da família, segundo Jeferson. Estavam em casa ele e Ruteh e os dois comeram o almoço preparado. “Não sei como eu não tive nada, ela deve ter dado um jeito de misturar [o veneno] na comida de Ruteh”, acredita o homem.

Mais tarde, reunido com amigos da igreja, recebeu um recado de Elisângela: Ruteh estava passando mal. “Eu só consegui orar, não acreditava que aquilo poderia estar, de novo acontecendo”, lembra. Na Unidade de Pronto Atendimento de Maragogipe, o médico Sávilo Santana já levantava a hipótese de morte por envenenamento. As suspeitas só cresceram na semana seguinte.

No almoço do dia 13 de agosto, Adriane havia preparado uma Moqueca de Fígado. Estavam apenas ela e Jeferson dessa vez. De tão satisfeitos do almoço, ainda no início da noite não sentiam fome, nem para o chocolate quente que, insistentemente, era oferecido por Elisângela, enquanto esperavam a hora do culto, às 19h.

Tamanha insistência, Adriane resolveu tomar a bebida. Outras pessoas também ingeriram o chocolate, sem qualquer sinal de mal estar. Às 19h30, no culto, Adriane já sentia o peso na barriga. Poucos minutos depois, tinha certeza do próprio fim:

“Meu Deus, eu estava na sua casa agora, não me deixa ir”. Adriane morreu na terceira segunda-feira, nas mesmas circunstâncias, no mesmo mistério que as filhas.

O mês das mortes coincidia exatamente com a estadia de Elisângela na casa. Não havia choro ou ida aos velórios, apenas a devoção parecia a mesma. “Isso era amor de me querer. Uma mãe não mata as pessoas que o filho ama. Não mata”, emociona-se Jeferson.

Depois das mortes

Nos dias seguintes à morte de Adriane, Elisângela permaneceu na casa de Raimunda e José, pais de Jeferson. Dizia querer estar perto do filho do coração. Mas os casos começavam a despertar a atenção de todos. E a polícia começou a investigação. Ao retornar do primeiro depoimento, Elisângela virou para o marido, Valci, também em Nagé, e gritou:

“Não falou nenhuma besteira não, né?! Olha para não ter falado nada de errado”, disse Elisângela.

Fosse apenas aquela gritaria, nem teria sido motivo de desconfiança. Até que a gritaria se transformou num desespero aparente.

“Ela disse aqui em casa que o delegado falou que Jeferson seria capaz de bater alguém no liquidificador e tomar. Jeferson foi perguntar para o delegado e ele estranhou tudo aquilo. Aí vimos que tinha algo estranho e que a gente precisava descobrir o que era”, diz uma das quatro irmãs de Jeferson, Paula Brandão, 35.

A visitante retorna, então, para Nagé. Por meio de Paula, já que o celular de Jeferson havia sido apreendido para investigação, tentava contato com o rapaz. “Eu não dava corda, mas também não cortava, a gente precisava ver se ela entregava algo”, conta Paula.

Ajudado por alguns parentes já desconfiados, Jeferson concluiu ser Elisângela a culpada. Ali, quando esteve na delegacia para prestar depoimento na fase final do inquérito, na última sexta-feira (19), teve ainda mais certeza.

“Ela me olhava com uma raiva, com um ódio. Não era mais aquela pessoa que se fingia de carinhosa, de minha mãe”, recorda o pescador.

Relacionamento

Jeferson e Adriane conheceram-se na escola, namoraram e começaram um relacionamento entre idas e vindas. A mãe de Adriane não aceitava Jeferson: assumidamente ex-usuário de drogas – segundo ele, apenas maconha e sem nenhum envolvimento com tráfico. No antigo perfil de Jeferson no Facebook, numa publicação de 2015, há menção ao símbolo da facção Bonde do Maluco, conforme mostrou reportagem do CORREIO.

Os anos passaram e, em 2013, Adriane engravidou da primeira filha, Gleysse. Jeferson já estava encostado pelo INSS, após um grave acidente de moto, em 2011, provocar afundamento e traumatismo craniano. “Era o jeito da mãe aceitar”, brinca Jeferson.

Os dois tiveram a segunda filha, Ruteh, e tiveram uma vida de casados até a oficialização da união. Mas, com algumas turbulências. Sobretudo conjugais. Há um ano, quando entrou para a Igreja Universal, frequentada pela esposa desde anos antes, confessou ter traído a esposa com uma ex-namorada. Traição perdoadas por Adriane.

“Por isso, também não faz sentido que essa mulher [Elisângela] vá para um vídeo dizer que a gente estava brigado [ele e Adriane]. Nós estávamos bem. Ela tinha inveja disso, inveja de Adriane”, acredita.

Na construção onde moraria com a família, Jeferson mira o rio onde trabalham os marisqueiros. “Deus sabe de tudo e as coisas tomarão jeito. Só o futuro e Deus…”, diz. Os próximos dias são tão imprevisíveis quanto a vida da pesca.

Veja a cronologia do caso:
  • Antes de 30 de julho – O cachorro da família foi a primeira vítima do veneno. Ele morreu dias antes da primeira vítima.
  • 30 de julho – Gleysse Santos da Conceição, 5 anos, filha mais velha do casal, morre após passar mal. Na época, a família acreditou que ela tinha sido vítima de uma complicação do diabetes.
  • 6 de agosto – Na segunda-feira seguinte, a irmã dela, Ruteh Santos da Conceição, 2, também passa mal e é levada às pressas para a UPA de Maragojipe, onde morre.
  • 11 de agosto – Adriane desabafa nas redes sociais: “Amores?. Eu lutarei para chegar no Céu, para abraçar vocês”.
  • 13 de agosto – Também numa segunda-feira, Adriane passa mal num culto e é levada ao hospital, onde morre.
  • 17 de agosto – O delegado Marcos Veloso pede a exumação do corpo de Gleysse. Primeira a morrer, ela acabou enterrada por “morte natural”.
  • 5 de setembro Justiça autoriza e o Departamento de Polícia Técnica exuma os corpos de Gleysse e Ruteh.
  • 14 de setembro – O juiz Lucas de Andrade Cerqueira Monteiro autoriza busca e apreensão na residência do casal Elisângela e Valci, colegas da igreja das vítimas.
  • 15 de setembro – Parentes de Adriane e das filhas são ouvidos pela polícia, assim como o casal Elisângela e Valci.
  • 20 de setembro – Sete pessoas são ouvidas pelo delegado Marcos Veloso, numa acareação.
  • 21 de setembro – Mandado de busca e apreensão é cumprido na residência do casal Elisângela e Valci.
  • 28 de setembro – A decisão que autoriza o cumprimento do mandado de busca é publicada no Diário Oficial de Justiça.
  • 11 de outubro – Elisângela e Valci são presos suspeitos de usar inseticida para matar Adriane e as duas crianças.
  • 16 de outubro – Polícia divulga o resultado da acareação. Segundo os investigadores, Elisângela tinha interesse no marido da vítima e matou mãe e filhas na esperança de ficar com o viúvo. Valci teria ajudado a acobertar o crime e atrapalhava as investigações.
  • 19 de outubro – O marido e pai das vítimas, Jeferson Brandão, é ouvido novamente pelo delegado Marcos Veloso, junto com a irmã Josina e o cunhado Gilson, depois de Elisângela dizer que ele batia na esposa.

Fonte: Correio.


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